Exposição coletiva "Remetente", Centro Cultural ULBRA, Porto Alegre, 1998

19/11/2012 13:11

 

Remetente foi uma proposta coletiva. Um grupo de artistas concebeu a ideia de formar uma rede, em que os integrantes deste núcleo convidariam outros artistas, que por sua vez convidariam outros. Pensava-se que o convite, baseado em preferências pessoais, sem uma orientação curatorial definida, propiciaria leituras de aproximação ou contraste na obra dos artistas em contato, e em relação ao grande grupo. A exposição foi inovadora em sua proposta e recebeu grande atenção da mídia.

 

Meu trabalho foi uma instalação em um espaço irregular, de características labirínticas. Intitulou-se Simplégades, mas o nome se refere apenas à abertura, uma passagem perigosa. O resto foi pura aventura. Na época eu estava impressionado com a a história de Jasão e os Argonautas, e acrescentando-se a isso a vasta população de mitos clássicos e imagens simbólicas que agitava minha mente neste período, orquestrar esse imaginário no espaço físico foi tão natural quanto delicioso. Simplégades é o nome de duas rochas que formavam um estreito perigoso para os marinheiros, pois as rochas se moviam e esmagavam os navios. Foi uma das provas que os herois mitológicos tiveram de enfrentar em sua busca pelo Velocino de Ouro.

 

 

A instalação nasceu a partir das características da sala e deu-lhe um dinamismo adicional, ocupando as superfícies de várias maneiras e criando novas relações de volumes e planos com interferências visuais diversas. Para compor a obra utilizei muitas pinturas figurativas em pequenos formatos que vinha fazendo há alguns anos, organizando-as em grupos narrativos, à maneira de pequenas histórias em quadrinhos. Às vezes esses grupos assumiam ele mesmos um caráter de mini-instalação, incorporando outros tipos de objetos, como luminárias, mobília, fotografias e desenhos. Também fez parte do processo criativo a intervenção direta nas paredes na forma de desenhos a pincel, inscrição de palavras e poemas em caligrafia e aplicação de um recorte eletrônico de vinil adesivo reproduzindo em grande formato um desenho que eu fizera há muitos anos, uma figura mitológica de fauno priápico em formas clássicas. Desta maneira, fui estruturando "capítulos" da história dos viajantes célebres, não literalmente, não seguindo o roteiro estabelecido pela tradição literária, mas criando minha própria viagem entre os mitos e passando eu mesmo às vezes ao papel de personagem, às vezes mais sendo um cronista ou comentarista, aproveitando a heterogênea iconografia acumulada nas pinturas, muitas vezes marcada pelo simbolismo e pelo imaginário mitológico, e que por isso oferecia um material altamente sugestivo da atmosfera fantástica da narrativa. Ao fim da exposição a instalação foi "sacrificada" e muitos de seus elementos foram recolhidos por outros participantes da exposição, evocando a dispersão e preservação da memória dos viajantes entre aqueles com quem eles entraram em contato.

 

 

A ideia da reconstituição da viagem lendária só se definiu num primeiro momento em linhas gerais, e foi sendo desenvolvida e criada em seus detalhes ao longo do processo de montagem. Simplégades foi importante em meu trabalho por constituir uma oportunidade de estabelecer uma ordem mais ou menos inteligível, embora não desprovida de paradoxos e discursos paralelos, em um material que eu vinha produzindo, acumulando e expondo caoticamente. A forma de apresentação em pequenas subnarrativas espalhadas pela sala foi um fator decisivo na articulação da obra como um percurso e na adequação ao espaço peculiar da sala. 

 

Remetente, Espaço Cultural ULBRA, Porto Alegre, 1998.

Ricardo Frantz, 2012

 

 

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Ricardo André Frantz