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2011-10-20 05:39

Release do Projeto Muffuletta+Arte de cartazes de rua, 2010

 

O cartaz elaborado para o projeto Muffuletta+Arte pretende estimular a reflexão sobre a violência, um tema de grande importância na sociedade de hoje em especial em ambiente urbano, mostrando as palavras PAZ e AMOR perfuradas por tiros contra um fundo vermelho vivo. Partindo do pressuposto de que um cartaz exposto em via pública vai atingir um público heterogêneo e provavelmente sem formação em arte, o objetivo principal foi privilegiar a compreensibilidade da mensagem. Desta maneira, a composição é extremamente simples, fazendo uso de um lettering claro e legível à distância, pontilhado de sinais gráficos representando orifícios de bala, evitando intencionalmente uma formalização complexa e esotérica que poderia confundir a leitura atraindo excessivamente a atenção para si em detrimento da mensagem proposta. A cor vermelha é tradicionalmente associada ao sangue, às paixões arrebatadas e mesmo à violência, e enfatiza o caráter dramático da situação apresentada.

 

Ricardo Frantz

Projeto Muffuletta+Arte, cartaz de rua, Porto Alegre, 2010

2011-10-20 05:37

Texto de apresentação da exposição Paisagens, 2006

 

Estas imagens não são fotografias meramente descritivas nem tecnicamente puras, são antes o resultado de uma interpretação da Natureza, vista com olhos de pintor, e valendo-me dos modernos meios de manipulação a posteriori disponibilizados por programas de computador como o Photoshop. Do retrato do natural restou apenas o desenho da paisagem, as formas, pois em todas as imagens alterei substancialmente as cores, os contrastes, as texturas, a luz e outros detalhes, no intuito de acrescentar atmosferas especiais e com isso suscitar leituras que uma reportagem mais crua das cenas talvez não pudesse proporcionar. Meu equipamento é simples, uma câmera de 6 MP, produzindo imagens que usualmente não poderiam ser ampliadas além de 40 cm em média, e estes grandes formatos logicamente desvirtuam muito do que se poderia esperar em termos de impecabilidade técnica num sentido mais estrito. Porém minha formação como pintor naturalmente me levou a abordar este outro meio expressivo com outros olhos, e onde um purista poderia tomar, por exemplo, o excesso de grão ou o foco impreciso como deficiências, e tendo lá suas razões, eu os vejo funcionarem como texturas e veladuras pictóricas. Em suma, o que fiz foi trabalhar com os limites de meus recursos instrumentais tentando tirar partido deles para que servissem à minha proposta atual, que é a de tentar elaborar um paisagismo híbrido, ao mesmo tempo descritivo e intimista, realista e simbólico, moderno e antigo, fotográfico e pictórico, sempre fazendo referência e uma homenagem à grande tradição de pintura de paisagem que ao longo do tempo foi, e ainda é, um dos campos mais férteis e bem sucedidos da manifestação artística, e que nesta fase de meu trabalho tem sido a fonte preponderante de inspiração.

 

Ricardo Longhi Frantz

Exposição Paisagens, Galeria Municipal de Cultura de Caxias do Sul, dezembro de 2006

 

2012-01-30 07:28

Catálogo da exposição Antarctica Artes com a Folha, 1998

Ricardo Frantz cria ambiguidades num espaço que parece corriqueiro, como uma sala de estar, mas cuja desorganização nos faz atentar para o significado de cada um daqueles objetos comuns ali colocados.

 

Nelson Brissac Peixoto

Catálogo da exposição Antarctica Artes com a Folha

Ibirapuera, São Paulo

Edtora Cosac Naify, 1998

2011-10-20 05:34

Texto de abertura da exposição individual Annedoto, 1998

 

Os trabalhos que desenvolvo no momento são fruto de uma pesquisa formal que se estende já por mais de 6 anos. Fundamentam-se conceitualmente e se realizam como objetos no emprego simultâneo de uma variada gama de materiais, estilemas, técnicas e procedimentos, de modo des-hierarquizado.

 

A sua apresentação é basicamente frontal, reminiscente de minha formação acadêmica como pintor. Contudo, tenho especial interesse em certa topografia física originada, na bidimensionalidade predominante, pelas colagens de papéis, adesivos, fotos e outros materiais. Tal topografia lhes confere, creio, um certo charme tosco, e reitera, ao evitar ilusionismos facilmente induzidos por uma superfície sem acidentes, sua presença física como objetos.

 

Um aspecto essencial é que parte principal da matéria-prima constituinte destes trabalhos é registro de outras obras, e às vezes é essas próprias outras obras, em rearranjos. Ou seus restos e fragmentos. Ou qualquer coisa que estiver ao alcance. De qualquer modo, sempre se trata de material de cunho afetivo. São em sua maioria reelaborações em torno de situações ou memórias de um tempo passado. Mesmo os ready-made, impuros, que produzo, são objetos de certa forma memorialistas.

 

O uso da reprodução de um outro objeto (foto, xerox, imagens de segunda ou terceira geração) é um expediente de distanciamento e de espelhamento, de multiplicação, ao mesmo tempo que é uma revitalização, porque existente como objeto novo, diferente daquele evento ou objeto artístico anterior, ainda que nesta revitalização o objeto original seja freqüentemente desnaturado e sua leitura desviada. Tomando como fulcro esta dialética entre o visível e o invisível, o original e a cópia, o processo e o produto, é possível ampliar o campo da percepção e da crítica de valor. Ficando patente, na sua rusticidade intencional, a estrutura física subjacente a todo objeto, as possibilidades de intercâmbios, mutações, reverberações e aproximações entre todas as coisas materiais produzem formas nunca definitivas, mas fluentes e abertas a novas organizações. Tudo pode vir a ser e/ou significar outra coisa. Torna-se natural, e mesmo orgânico, o trânsito entre as várias técnicas, e uma simples colagem pode ser o motor de partida para uma instalação que abranja uma sala inteira.

 

Diz Dane Rudhyar:

 

"Quando um vasto grupo de homens consegue construir uma cultura dotada de fortes instituições que se expressam em símbolos e obras significativas no campo da arte ou da literatura, um tal esforço de muitas gerações raramente se perde de uma vez por todas. De uma forma ou de outra, registros destas culturas resistem ou são misteriosamente preservados, pela simples razão de que esses registros revelam o lugar e a função dessa cultura particular ao longo do processo de desdobramento das potencialidades inerentes ao HOMEM arquetípico (...) O Símbolo (...) nos diz, todavia, que a preservação REAL dos registros em questão jamais é perfeita ou integral. Apenas fragmentos permanecem, mas fragmentos significativos o bastante para revelarem a forma arquetípica essencial".         

 

Opero em uma modalidade bastante autobiográfica de expressão. Assumidamente um homo culturalis, meu ser sendo constituído de símbolos e formas culturais vivos, além das formas naturais, vejo meu trabalho como a recuperação da própria trajetória percorrida em meio à minha cultura original, terceiromundista, pobre e marginal, sem nostalgias, porém com afeto. Porém urge reavaliar sempre, urge achar novas soluções para problemas que essencialmente circulam em torno de um centro comum: o eu em meio ao todo. A questão que permanece é: como viver a história hoje, como transformar-me, atualizar-me, sem deixar de ser eu mesmo, com todo o meu passado e com o passado de minha cultura, ainda tão vivo? Autofagia e regeneração. Em meio à eterna mutação das formas, ao seu desvanecimento material, ao seu escape contínuo por entre os dedos da memória, talvez meu trabalho espelhe uma busca de um senso de firmeza e permanência, um chão sob meus pés, mesmo quando a nova afirmação, conscientemente cultural e pretendendo uma inserção artística, soe como uma deliberada reação às maneiras convencionais de estruturação formal, ou ao modo tradicionalmente considerado como virtuosístico ou bem-acabado de uma obra se fazer visível.

 

Ricardo Frantz

Exposição Annedoto, Galeria de Arte da Universidade de Caxias do Sul, 1998

2011-10-20 05:31

Matéria no Jornal Pioneiro, 1 de junho de 1996

 

Inquietude do artista, serenidade da arte

 

"A exposição do artista plástico Ricardo Frantz, na Galeria da Casa de Cultura, provoca o público. Causa estranheza. Não são apenas as obras, mas também o modo de expô-las que chama a atenção. Alguns espectadores se sentem agredidos. Nada de novo. A segunda metade do século XIX e o século XX são marcados pelo conflito entre a arte e o gosto do público. Independente da definição de critérios para julgar o valor artístico de uma obra, o gosto estético só pode ser formado na base do princípio da sociabilidade e da intersubjetividade. As relações do indivíduo com os valores do grupo social determinam, em grande parte, padrões estéticos considerados válidos, apenas válidos, não necessariamente verdadeiros.

 

"Ricardo Frantz busca uma linguagem individual, tarefa que exige dedicação. A perfeição expressiva não supõe apenas o abandono de práticas e conceitos dominantes. Requer também uma nova linguagem, espontânea ou construída, mas sempre adequada à função de expressar. Como acontece com os poetas, escrever versos sem métrica exige maior domínio do ritmo. Ser espontâneo, primitivo ou assumir o 'traço' popular, para o homem culto é uma impossibilidade que só o artista procura superar. Ricardo Frantz aceita decididamente correr esse risco. Tenta dizer a realidade como se fosse pela primeira vez, como fazem os artistas criadores. Tal afoiteza provoca conseqüências nos resultados da própria obra e nas reações do público. Para os que lidam com arte, entre tantas obras expostas, é natural que algumas se destaquem pelas soluções formais.

 

"Parece que o próprio artista tem uma certa estranheza diante da obra, pois o título da exposição, em forma de pergunta 'O que quer dizer?', traduz esse sentimento. Tal atitude não é defeito, mas virtude. Ao perguntar 'o que quer dizer', referindo-se aos seus trabalhos, passa ao público as suas dúvidas. Não pretende definir sua arte. Quer saber se ela diz e, principalmente, o que quer dizer. Porém, o querer dizer depende, antes de tudo, da própria obra, ponte entre o artista e o espectador. A obra está aí. Posta a público. Diz por si. Impossível traduzir exatamente a 'fala' pictórica em palavras.

 

"O artista parece inconformado com os modos institucionalizados de expor a obra ao público. Por isso, Ricardo Frantz intervém nos aspectos sociais da exposição e procura devolver às obras algo do estado de atelier. No mundo do atelier, as obras encontram-se justapostas, espontaneamente. Estão num ordenamento 'caótico' anterior ao convencional da galeria. A exposição não pode desvirtuar o que há de genuíno, de espontâneo, de vivido, de gênese na obra. A própria moldura é adjetiva. Ela não faz parte do quadro. Por isso, para evitar as interferências externas, o artista procura anular os artifícios (falas da arte) da exposição através de novas interferências, talvez provocantes, mas que pretendem libertar o sentido da obra. O artista usa o recurso da encenação, do mise en scéne, para expor seus trabalhos. Poderia até colocar as obras de arte empilhadas em cima de uma mesa para cada espectador manusear e olhar como quiser. Já que é necessário o placo, a parede, a sala, ele tira proveito do modo de expor as obras para completar a linguagem da própria obra. Cabe ao espectador distinguir, comparar, selecionar as obras. Distinguir as obras mais bem realizadas em relação às menos elaboradas.

 

"O querer dizer nem sempre é o 'poder dizer'. Ricardo Frantz sabe disso muito bem. Prova disso é a atmosfera de inquietude de seus quadros, mas de uma inquietude serena, sem falsos dramas, presente nos jogos dos movimentos e das cores. Perspectivas, enquadramentos, ângulos, planos estão dominados pela primazia do movimento que define a composição. A cores apresentam-se livres. Deste modo, a inquietude, que tende a ser grave no homem, na obra de arte adquire serenidade. O artista luta para dizer seus sentimentos ao mundo. O que permanece no quadro são rastros. Signos, figuras de Jesus, da Virgem, símbolos antigos e populares testemunhando um mundo mítico e religioso entre paisagens ou cenas de vida".

 

Jayme Paviani

Professor, filósofo e crítico de arte.


Matéria no Jornal Pioneiro, 1 de junho de 1996, referente à individual O que quer dizer?, Casa de Cultura de Caxias do Sul

2011-10-20 05:29

Texto no catálogo da exposição Nova Pintura Figurativa, 1994

 

Ricardo Frantz está tentando recuperar a memória cultural marginalizada da arte. O caráter de pastiche de sua obra atual, feita de ícones de mau gosto, procedimentos fáceis e a ênfase na pintura de gênero, denota o esforço em recuperar o lixo cultural, a produção dos pintores de rua, dos naïfs, dos objetos kitsch. Ao lado desta tentativa de recuperação da dignidade perdida das manifestações culturais marginalizadas, Ricardo Frantz percorre um caminho de autoconhecimento através da sua arte, onde o elemento religioso compartilha do mesmo espaço da citação culta, da inscrição em latim, da referência ao gosto pessoal. A narrativa de sua pintura deve ser compreendida como uma linguagem de aparências, onde o que está explicitado não é necessariamente e o que significa, mas o que pode vir a significar.

 

Paulo Gomes, curador.

Doutor em Poéticas Visuais pela Sorbonne e professor da UFRGS

 

Catálogo da exposição Nova Pintura Figurativa, 1994, Galeria Iberê Camargo do MAC-RS, Porto Alegre

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Ricardo André Frantz