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04/03/2014 08:14

Exposição individual Terra. Casa da Cultura de Caxias do Sul, 2014

 

Terra

 

Nosso chão, nosso sustento, e o palco da vida em perpétua transformação. A Terra é um relicário único de vida no universo conhecido. Por isso é preciosa, insubstituível. Mas essa vida é também frágil, e não estamos fazendo muito para preservá-la. Nossas florestas desaparecem em ritmo acelerado, os rios, os solos e o ar estão sendo poluídos, estamos modificando o clima radicalmente, os recursos naturais estão se esgotando, e a humanidade ainda vive como se a Terra fosse inesgotável e como se não houvesse amanhã.

Até mesmo as lutas sociais conquistarão resultados efêmeros e ilusórios se a questão ambiental e a sustentabilidade não forem incluídas centralmente nos debates, pois o ambiente está na própria base da civilização, e ela depende, em tudo, dos recursos naturais para florescer. Aliás, como sempre dependeu. Mas se antigamente a natureza podia ser explorada sem maiores preocupações, pois eram relativamente poucas as pessoas a viver no mundo, gerando impactos limitados e reversíveis, a explosão demográfica contemporânea torna o antigo modelo um caminho certo para a catástrofe global.

 

Hoje, segundo informam os cientistas, cerca de 60% dos recursos naturais estão em vias de rápido esgotamento, e mesmo assim desperdiçamos cerca de 30% de tudo o que tiramos da natureza. O que será do mundo em meados do século, quando teremos dois bilhões de pessoas a mais para dar casa, comida, água, educação e todo o resto necessário para que sua vida seja desejável de viver? O que será de todos se o clima estiver alterado a ponto de comprometer a produção de alimentos, aumentando ao mesmo tempo a ocorrência de desastres naturais, se dar sustento e abrigo para todos já é tão difícil agora, quando mais de 800 milhões de pessoas passa fome crônica e vive em condições sub-humanas? Se nada for feito, e rápido, para revertermos esse quadro, calcula-se que em 2100 o clima estará tão alterado que 70% de todas as espécies vivas atualmente serão extintas. Isso significará, sem a menor dúvida, o colapso total dos ecossistemas e dos sistemas produtivos humanos, e será o fim da civilização como hoje a conhecemos. 

 

Os elementos do mundo natural há milênios têm sido transformados em arte, em símbolo e monumento. E não por outra razão do que pelos seus significados de bondade, como promessas de felicidade e testemunhos de sua importância para o homem. Mas essa bondade só pode se manifestar em plenitude se a rede de interdependências da vida é preservada, pois nesta Terra em que vivemos, tudo está intimamente interligado. Não podemos tê-la se destruímos nosso planeta. 

 

Mas as mudanças necessárias e inadiáveis encontram impedimentos em todas as frentes, seja por desconhecimento, seja por preconceitos e hábitos arraigados, por egoísmo, ou por interesses econômicos e políticos imediatistas. Apesar de sua importância e influência, em última análise não são os governos e instituições os responsáveis pelo nosso futuro – somos nós: são as escolhas, grandes e pequenas, que fazemos diariamente. Mas criamos para nós mesmos a possibilidade real da perda permanente das bondades que amamos e das quais dependemos para viver. Essas pinturas são para ajudar a lembrar o que está em jogo. 

 

Ricardo André Frantz

 

 

 

 

Terra

Pinturas de grandes dimensões

Casa da Cultura Percy Vargas de Abreu e Lima, Caxias do Sul

De 7 a 29 de março de 2014

Veja um vídeo no YouTube: www.youtube.com/watch?v=Xgr26UmL2uw

 

 

 

 

10/12/2013 22:26

Exposição coletiva Pintura: Modos de Usar. Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013-2014

 

A partir dos anos de 1970, o fim da hegemonia da pintura como categoria artística, paralelamente ao sugimento das mais diversas formas de manifestação em arte, trouxe para o campo da pintura um sentimento de crise e, ao mesmo tempo, uma inteira liberdade de investigação e trânsito por uma longa história. A pintura, ao libertar-se dos dogmas tanto extrínsecos quanto intrínsecos a ela, encontra um campo amplo e fértil de possibilidades a serem exploradas. Pode ser discutida a partir de vários enfoques: a partir de seu poder representacional, da materialidade, da expressão, de seu suporte, das relações com os novos meios de produção de imagem e outros mais que poderiam ser elencados. É um meio entre tantos outros de dar forma e visibilidade às ideias. Pintura: Modos de Usar reune no MACRS oito pintores que buscam maneiras distintas de problematizar e usar a linguagem. Diferentemente de uma bula, os modos aqui pretendem apontar a diversidade como condição para a pintura contemporânea.

 

Marilice Corona

Organizadora

 

 Pintura: Modos de Usar 

Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre

13 de dezembro de 2013 a 12 de janeiro de 2014

 

Artistas

 

Claudia Barbisan

Eduardo Haesbaert

Fátima Junqueira

Frantz

Gelson Radaelli

Marilice Corona

Ricardo André Frantz

Richard John

 

 

 

 

Idealismo

Acrílica sobre tela, 300 x 145 cm, 2012

 

 

A revolução cotidiana (Marcha das Vadias, Porto Alegre, 2013). Acrílica sobre tela, 300 x 145 cm, 2013

 

 

 

 

 

 

 

14/09/2013 07:09

Exposição coletiva "Modos de Ser e Estar no Mundo", Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Instituto de Artes da UFRGS, Porto Alegre, 2013.

 

 

"Deficiência, eficiência? A palavra arte não aparece aí. Quem delimita os limites? O que é um ser humano completo? É um ser perfeito como o proposto na idealização grega? Um ser produtivo como o estipulado pela sociedade do consumo? O que é ser eficiente e deficiente na Universidade? E o que a arte e um espaço museológico têm a ver com isso?

 

"Foi a partir destas indagações (e inquietações) que surgiu a proposta da exposição Modos de Ser e Estar no Mundo, na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS. Neste evento, artistas que trabalham com diferentes linguagens e conceitos propõem experiências que tocam aspectos emocionais, espirituais e intelectuais para enfatizar a riqueza, a diversidade, as limitações e os não-limites que nos caracterizam como seres humanos.

 

"Carregando o desafio de ser instalada em um prédio antigo, que apresenta muitas dificuldades para os ajustes necessários de acessibilidade, a exposição objetiva também provocar reflexões sobre as possibilidades de adaptação deste espaço ao acesso universal. Trata-se de um desafio tanto para os artistas que estão produzindo as obras especialmente para a ocasião quanto para a Universidade que trabalha para possibilitar a participação de todas as pessoas em nossos espaços.

 

"Em um esforço conjunto, Instituto de Artes, Pró-Reitoria de Extensão, Departamento de Difusão Cultural e Programa Incluir da UFRGS desenvolvem um projeto-piloto de exposições para que começemos a tratar as questões da acessibilidade e das diversidades na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo com a seriedade e respeito que elas merecem.

 

"A acessibilidade possível, por ocasião da exposição, será limitada, sem acesso a cadeirantes. Contaremos com intérprete de libras para surdos e mediadores especializados para pessoas com deficiência visual, desde que com agenciamento prévio. Sinta-se convidado, com seu modo de ser e de estar no mundo, a participar desta iniciativa."

 

Cláudia Zanatta, Patrícia Bohrer e Rodrigo Núñes

Curadores

 

 

A obra apresentada na exposição, intitulada Para não esquecer que os vândalos continuam no podernasceu a partir de uma fotografia que bati em Porto Alegre, em uma das várias manifestações públicas que tomaram o Brasil em 2013, em protesto contra as condições opressivas em que vive a população e reivindicando mudanças, entre as quais estava, proeminentemente, o maior respeito pelas minorias. Escolhi esta imagem em função da proposta inclusiva da exposição.

 

 

Uma multidão está na frente do Palácio Piratini, sede do governo estadual, e grita continuamente várias palavras de ordem. Por cima de todos paira uma enorme faixa com os dizeres “Os vândalos estão no poder!”, o que me surpreendeu naquele dia como uma descrição brilhantemente sucinta e precisa da situação que o país vive hoje, assolado pela incúria administrativa, pelos retrocessos na área do meio ambiente, saúde, educação, pela ineficiência do sistema jurídico, por um congresso nacional composto majoritariamente de criminosos, fanáticos, lobbystas de grandes negócios ou meras caricaturas incompetentes, e sobretudo pela corrupção sistêmica que suga vastos recursos públicos e depreda instituições e serviços vitais, vandalizando com a vida de todos, causando a morte de milhares todos os anos e fazendo uns poucos se tornarem muito, muito ricos. 

 

Para atender ao desafio da curadoria da exposição de tornar as obras de arte acessíveis a portadores de necessidades especiais, procurei descobrir, na ausência da imagem, qual seria, para alguém que não vê ou não esteve lá, a melhor tradução desse mar visual efervescente de vida e consciência cívica que tomou nossas ruas. Meus meios usuais de expressão são a foto e a pintura, e nesta tentativa de tradução percebi o quanto minha própria concepção de mundo é dominada pela visualidade, e como a própria linguagem corrente também é. Apenas descrever como é a foto, ou como foi aquele movimento, me pareceu tão insuficiente! Eu precisaria ser um poeta para dar vida à narrativa, mas não sou poeta, sou um artista visual. Lembrei, então, que eu havia feito alguns registros sonoros na mesma oportunidade. Geralmente faço isso, mas não costumo guardar esses registros por muito tempo, não trabalho com gravações de áudio e foi por puro acaso que conservei estas. Nada melhor, para recriar ou traduzir a fotografia, do que o som daquele preciso momento que ela captura em formas, esperando otimista que o ouvinte construa o que lhe faltar para que alguma corda em seu interior vibre em sintonia, vivificando a mensagem e lembrando-lhe de sua atualidade.

 

Minha obra, enfim, tem muito pouco de meu: é o som cru capturado na ocasião em que a foto escolhida foi obtida, com pequenos ajustes técnicos que não sacrificam sua autenticidade. Mas se fazer arte é em essência transmitir uma mensagem, creio que meu recado ficou dado. Embora eu também seja compositor, imagino que manipular o registro sonoro a ponto de torná-lo uma peça de música seria adocicar a pungência do lamento nacional. As interferências pessoais se resumem principalmente a cortes, para evitar as longas repetições de um mesmo bordão e mostrar condensadamente um pouco da variedade das reivindicações que se ouviam, evitando tornar a experiência, no contexto de uma exposição de arte, entediante. O resultado é uma breve mas vibrante imersão em um momento que ficou na memória do país, mas cujos anseios que expressou não podem ser novamente esquecidos enquanto a situação não mudar.

 

Ricardo André Frantz, 2013.

 

Um link para a gravação: 

soundcloud.com/ricardo-andre-frantz/para-n-o-esquecer-que-os-v

 

 

 

 

 

 

 
17/10/2012 00:58

Exposição coletiva "Distensões do Real", Espaço Cultural Feevale, Novo Hamburgo, 2012

 

A coletiva fotográfica Distensões do Real, com curadoria de Clóvis Martins Costa, inaugurou o Espaço Cultural da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. 

 

Ao fazer o convite, o curador delineou sua proposta: A exposição terá como escopo ... a percepção da fotografia enquanto dispositivo para o alargamento/distensão da realidade, tornando visível "alguma coisa do mundo, alguma coisa que não é, necessariamente, da ordem do visível" (ROUILLÈ, 2009). Partindo dos trabalhos apresentados, poderemos verificar a relação das poéticas de cada um no que toca a esta qualidade da imagem fotográfica.

 

Participei com um trabalho da série Poéticas da Tecnologia: Storyboards. Está prevista a publicação de um catálogo até o final da mostra. 

 

 

Poéticas da Tecnologia é uma série de trabalhos com fotografia que venho desenvolvendo de maneira intermitente desde 2010, que se divide em um grupo de subséries, cada qual com uma proposta específica. Poéticas explora diferentes efeitos plásticos e suas possibilidades expressivas obtidos com recursos fotográficos automatizados ou semi-automáticos, e com o acaso. Em Storyboards, o subgrupo que trabalho atualmente, o motivo principal são avenidas e cruzamentos com intenso tráfico de veículos.

 

A imagem fotográfica é obtida usando o ajuste “fotografia panorâmica” de uma câmera Sony DSC H-55, um modelo amador sem qualquer sofisticação. A imagem gerada tem uma grande largura mas pequena altura, predominando amplamente o sentido horizontal. Esse formato panorâmico por si transmite ao observador uma sensação de amplitude, de ambiente aberto, como é o desses locais em foco. Por outro lado, a fotografia com este ajuste pressupõe um objeto imóvel, como uma paisagem, por exemplo, para que se possa conseguir uma imagem contínua e sem falhas. Contudo, a captura de objetos móveis com este ajuste adquire interesse pela fragmentação e outras anomalias que provoca na imagem, incluindo distorções e gerando maior granulação, oferecendo resultados plásticos que, pela regulagem automática da câmera, têm muito do acaso e imprevisto, mas também podem ser manipulados deliberadamente em alguma medida, através da velocidade com que se move a câmera, regulando previamente contrastes, prevendo, pela prática da observação, o comportamento dos objetos em foco e de seu movimento, e mesmo usando da intuição e do improviso na captura. Pode-se inclusive introduzir um novo elemento de dinamismo através da captura com o fotógrafo em movimento. Basta estar dentro de um automóvel. O resultado é diferente do outro processo, antes descrito. A imagem resulta com uma fragmentação mais nervosa, quase ondulante.

 

O recurso tecnológico escolhido se revela útil como maneira de fixar e transmitir a atmosfera de agitação que caracteriza esses locais, com múltiplos objetos em movimento por toda parte - o formigueiro de pessoas e automóveis em alta velocidade – que se embaralham e entram e saem de nosso campo visual em questão de segundos, deixando apenas um rastro fugaz em nossas retinas e memórias. Registrando uma dinâmica fragmentada, a imagem final remete às histórias em quadrinhos, aos roteiros de cinema e vídeo, com seu desenrolar dramático tipicamente congelado em quadros separados. Ao mesmo tempo, o cenário de fundo, a paisagem urbana imóvel, é capturada quase sem quebras de continuidade, fazendo um imprevisto contraste com os outros elementos da composição e reintegrando visualmente a unidade do tempo e do movimento.

 

Ricardo André Frantz, 2012

 

21/06/2012 02:49

Exposição individual "eternos-efêmeros", Fundação Ecarta, Porto Alegre, 2012, com uma seleção de pinturas da série "Intensificações"

 

 

 

"Para realizar as pinturas exibidas nesta exposição, Ricardo André Frantz partiu da apropriação de fotografias alheias encontradas em um banco de imagens de uso livre. Ajustando digitalmente alguns parâmetros da imagem, esta imagem é então transposta para a tela através de um dispositivo ótico projetivo. Uma vez afixado o contorno de uma imagem realista projetada sobre a tela, o artista tratou de interpretá-la através da pintura, de encontrar um tratamento pictórico adequado para cada área das figuras e dos cenários presentes em cada quadro.

"Da distribuição generosa das massas coloridas e do requinte dos detalhes pictóricos surgem imagens impactantes, que saltam aos olhos portando temáticas afáveis, agradáveis mesmo, reiterações de lugares-comuns, de uma “banalidade carregada de afetos”, conforme dito pelo artista. Efêmeros momentos de deleite eternizados pela monumentalidade do tamanho das suas pinturas.

"Efêmeros também são os gestos, eternos também podem ser as marcas deixadas por eles, preservadas sobre a superfície do tecido. Desafiado pela escala de grande formato de suas telas, Ricardo buscou um modo de pintar que atendesse tanto ao interesse das imagens como ao interesse da pintura propriamente dita, estabelecendo um jogo entre o olhar aproximado que vê as manchas e o olhar afastado que vê as imagens. Procurando, segundo suas próprias palavras, “até aonde pode ir a liberdade do gesto” mantendo o interesse da obra “por sua plasticidade pura, sem que se perca no processo a eficiência da ilusão representativa”.

 

Chico Machado

Curador

 

 

 

Iniciação, acrílica, 300 x 145 cm

 

Banho de sol, acrílica, 300 x 145 cm

 

Hoje, talvez mais do que nunca, nada se faz sozinho. Intensificações é uma série de pinturas em grandes formatos realizadas a partir de imagens obtidas em um banco de mídias de uso livre, cujos autores muitas vezes só se identificam por apelidos. Ao apropriar-me de imagens alheias quis enfatizar o caráter coletivo - e infinitas vezes anônimo - do processo de construção da cultura. Este procedimento não é novo em meu trabalho. Em meus primeiros anos me apropriei intensivamente de material oriundo da cultura visual popular e erudita, buscando para ele novas articulações e significados em rearranjos iconoclastas e antropofágicos. Aqui, porém, a apropriação tem um sentido diferente: não busca, como antes, contestar e hibridizar tudo num grande mix geral, mas sim selecionar componentes particulares do oceano de images contemporâneo e enfatizá-los.

 

Mais do que uma simples apropriação, as pinturas que derivam dessas fotografias constituem uma verdadeira re-criação da imagem original, que é transformada na pintura de vários modos, seja pela eleição de uma paleta de cores diferente, seja pela alteração, supressão ou acréscimo de elementos da composição, seja pela magnificação da sua escala e pela própria materialização da imagem através de tinta e gesto, o que lhe confere um caráter novo e único, irreproduzível, intensificando a imagem original de maneiras novas, e criando tensões interessantes entre o ilusionismo "fotográfico" e a materialidade visível das pinceladas.

 

Conceitos, processos, técnicas, significados, formam-se lentamente ao longo de séculos, pela contribuição pontual de milhões de pessoas, e o aparecimento de “soluções” para os problemas artísticos é sempre provisório, efêmero. Pois muitas vezes o que se encontra na busca não é a resposta desejada, mas sim uma nova pergunta, uma re-verberação, um pequeno reflexo estilhaçado do todo que nos foge, ou o vislumbre de uma nova mutação.

 

A cultura, assim, como a vida, é uma rede de interdependências. Que seria de Picasso se não fosse Policleto? E o que seria de ambos sem o pão de cada dia em seu prato? O pão feito pelo humilde padeiro que acorda às cinco da manhã, trabalhando sobre o suado suor do camponês, que colheu da terra, a troco de esmola, o sustento para as multidões que não conhece e estão longe. Podemos remontar nessa cadeia à origem do mundo e a todas as coisas presentes, e a todos os seres vivos. Cada elo nessa cadeia é precioso e frágil, assim como são frágeis o material de que são feitas estas pinturas e os momentos/sujeitos que elas retratam. Por isso a temática afável. Por extensão, amorosa. Por natureza, bela.

 

Ora, o que é assim bom e gostoso, natural que desejemos preservar, e, como seres culturais, até decantar em arte e transformar em símbolo e monumento. E não por outra razão do que pelo seu conteúdo de bondade, como promessa de felicidade. Mais uma razão para que as imagens originais fossem alheias, e não representassem um universo que me fosse exclusivo, embora todas elas remetam a importantes episódios em minha vida e a série seja, deste ponto de vista, também alegórica e memorialista. Mas, antes, foram escolhidas deliberada e especificamente imagens que também pudessem se confundir com a experiência comum de todos, com as utopias que todos acalentam, com a bondade que todos já experimentamos e desejamos que se repita.

 

Essa bondade só pode se manifestar em plenitude se a rede de interdependências da vida se mantém intacta. Não podemos tê-la se nos matamos uns aos outros e se destruímos nosso planeta. Se fazemos isso nossa “civilização” e nossa “cultura” não passam de um engodo monstruoso que um dia vai engolir a nós próprios. Todos somos responsáveis pelo futuro, mas criamos para nós a possibilidade real da perda permanente da bondade que amamos. Essas pinturas então podem ser, também, para ajudar que lembremos. 

 

Ricardo André Frantz

 

Ricardo Frantz e Chico Machado

na abertura da exposição

 

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20/10/2011 05:39

PAZ&AMOR, Projeto Muffuletta+Arte de cartazes de rua, Porto Alegre, 2010

 

O cartaz elaborado para o projeto Muffuletta+Arte pretende estimular a reflexão sobre a violência, um tema de grande importância na sociedade de hoje em especial em ambiente urbano, mostrando as palavras PAZ e AMOR perfuradas por tiros contra um fundo vermelho vivo. Partindo do pressuposto de que um cartaz exposto em via pública vai atingir um público heterogêneo e provavelmente sem formação em arte, o objetivo principal foi privilegiar a compreensibilidade da mensagem. Desta maneira, a composição é extremamente simples, fazendo uso de um lettering claro e legível à distância, pontilhado de sinais gráficos representando orifícios de bala, evitando intencionalmente uma formalização complexa e esotérica que poderia confundir a leitura atraindo excessivamente a atenção para si em detrimento da mensagem proposta. A cor vermelha é tradicionalmente associada ao sangue, às paixões arrebatadas e mesmo à violência, e enfatiza o caráter dramático da situação apresentada.

 

Ricardo Frantz

Projeto Muffuletta+Arte, cartaz de rua, Porto Alegre, 2010

 

 

 

 

 

Foto de Alexandre Moreira

20/10/2011 05:37

Exposição individual "Paisagens", Casa de Cultura de Caxias do Sul, 2006

 

Estas imagens não são fotografias meramente descritivas nem tecnicamente puras, são antes o resultado de uma interpretação da Natureza, vista com olhos de pintor, e valendo-me dos modernos meios de manipulação de imagem disponibilizados por programas de computador como o Photoshop. Do retrato do natural restou apenas o desenho da paisagem, as formas, pois em todas as imagens alterei substancialmente as cores, os contrastes, as texturas, a luz e outros detalhes, no intuito de acrescentar atmosferas especiais e com isso suscitar leituras que uma reportagem mais crua das cenas talvez não pudesse proporcionar.

 

Meu equipamento é simples, uma câmera de 6 MP, produzindo imagens que usualmente não poderiam ser ampliadas além de 40 cm em média, e estes grandes formatos logicamente desvirtuam muito do que se poderia esperar em termos de impecabilidade técnica num sentido mais estrito. Porém minha formação como pintor naturalmente me levou a abordar este outro meio expressivo com outros olhos, e onde um purista poderia tomar, por exemplo, o excesso de grão ou o foco impreciso como deficiências, e tendo lá suas razões, eu os vejo funcionarem como texturas e veladuras pictóricas.

 

Em suma, o que fiz foi trabalhar com os limites de meus recursos instrumentais tentando tirar partido deles para que servissem à minha proposta atual, que é a de tentar elaborar um paisagismo híbrido, ao mesmo tempo descritivo e intimista, realista e simbólico, moderno e antigo, fotográfico e pictórico, sempre fazendo referência e uma homenagem à grande tradição de pintura de paisagem que ao longo do tempo foi, e ainda é, um dos campos mais férteis e bem sucedidos da manifestação artística, e que nesta fase de meu trabalho tem sido a fonte preponderante de inspiração.

 

Ricardo André Frantz

Exposição Paisagens, Galeria Municipal de Arte de Caxias do Sul, Casa de Cultura Percy Vargas de Abreu e Lima, dezembro de 2006

 

 

 

 

 

21/11/2012 06:32

Exposição individual "Memorabilia", Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, Caxias do Sul, 2002

 

A ideia em Memorabilia foi recuperar uma parte de minha história e minha prática artística, analisá-la e reorganizá-la, e fazer uma espécie de balanço. Havia uma sensação de ciclo fechando, e eu precisava ter isso visualizado plasticamente. Utilizei principalmente uma vasta documentação fotográfica que eu vinha acumulando há anos, e que registrava meu processo de criação, o ambiente do meu atelier, imagens de obras acabadas e das exposições que realizei, onde se incluíam fotos de familiares e amigos. Também recorri a um acervo de imagens alheias encontradas em revistas e livros de arte, e que eu coletava como inspiração também há anos. 

 

 

Memória, fotos e plástico decorado

 

A exposição resultou em quatro obras criadas especificamente para o local, usando material com características particulares. Coração concentrou as memórias afetivas, agrupando as fotos de parentes e amigos no formato de um coração, coberto por um véu de plástico transparente decorado com estrelas e sóis. Memória agrupou o material ligado ao processo criativo e imagens de atelier e exposições. Com ele construí uma forma de casa em sua configuração mais sólida e sumária - telhado, porta e janela - apontando para o fazer como uma história, uma construção, uma crítica e um lugar de habitar e ser. Mundo das Ideias, por sua vez, foi elaborado apenas com um spray dourado aplicado em círculos na parede, abaixo tendo um pedestal de ferro pintando de preto. Refere-se ao processo ideativo, o ato de criar em sua primeira manifestação, e aos lampejos da memória, e sua materialidade rarefeita e formas geométricas sugerem a abstração do intelecto e a concentração no essencial. O pedestal negro é a matéria.

 

Mundo das Ideias, spray e pedestal

 

A última obra se chamou Descendência, um desenho a grafite feito diretamente na parede com a forma de árvore. Sobre ele, foram aplicadas inúmeras imagens de segunda e terceira geração de obras de Duchamp, Magritte e outros artistas das vanguardas modernistas, junto com desenhos em papel e fotografias de outros trabalhos de minha autoria, como se fossem folhas da árvore. Sobre o tronco foram aplicados fragmentos de um retrato de Duchamp. Quis fazer um comentário bem-humorado a respeito de minhas principais filiações estéticas durante aquele período, em que entre minhas preocupações centrais estava trabalhar a questão do meio como mensagem proposta por MacLuhan e a questão da ruptura como ilustrada pela obra de Duchamp. Entre essas obras incluí um espelho com colagens de imagens de anjos medievais, e um poema que falava dos ciclos criativos.

 

 

 

 

Exposição Memorabilia,

Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, Caxias do Sul, 2002

Ricardo Frantz, 2012

19/11/2012 13:11

Exposição coletiva "Remetente", Centro Cultural ULBRA, Porto Alegre, 1998

 

Remetente foi uma proposta coletiva. Um grupo de artistas concebeu a ideia de formar uma rede, em que os integrantes deste núcleo convidariam outros artistas, que por sua vez convidariam outros. Pensava-se que o convite, baseado em preferências pessoais, sem uma orientação curatorial definida, propiciaria leituras de aproximação ou contraste na obra dos artistas em contato, e em relação ao grande grupo. A exposição foi inovadora em sua proposta e recebeu grande atenção da mídia.

 

Meu trabalho foi uma instalação em um espaço irregular, de características labirínticas. Intitulou-se Simplégades, mas o nome se refere apenas à abertura, uma passagem perigosa. O resto foi pura aventura. Na época eu estava impressionado com a a história de Jasão e os Argonautas, e acrescentando-se a isso a vasta população de mitos clássicos e imagens simbólicas que agitava minha mente neste período, orquestrar esse imaginário no espaço físico foi tão natural quanto delicioso. Simplégades é o nome de duas rochas que formavam um estreito perigoso para os marinheiros, pois as rochas se moviam e esmagavam os navios. Foi uma das provas que os herois mitológicos tiveram de enfrentar em sua busca pelo Velocino de Ouro.

 

 

A instalação nasceu a partir das características da sala e deu-lhe um dinamismo adicional, ocupando as superfícies de várias maneiras e criando novas relações de volumes e planos com interferências visuais diversas. Para compor a obra utilizei muitas pinturas figurativas em pequenos formatos que vinha fazendo há alguns anos, organizando-as em grupos narrativos, à maneira de pequenas histórias em quadrinhos. Às vezes esses grupos assumiam ele mesmos um caráter de mini-instalação, incorporando outros tipos de objetos, como luminárias, mobília, fotografias e desenhos. Também fez parte do processo criativo a intervenção direta nas paredes na forma de desenhos a pincel, inscrição de palavras e poemas em caligrafia e aplicação de um recorte eletrônico de vinil adesivo reproduzindo em grande formato um desenho que eu fizera há muitos anos, uma figura mitológica de fauno priápico em formas clássicas. Desta maneira, fui estruturando "capítulos" da história dos viajantes célebres, não literalmente, não seguindo o roteiro estabelecido pela tradição literária, mas criando minha própria viagem entre os mitos e passando eu mesmo às vezes ao papel de personagem, às vezes mais sendo um cronista ou comentarista, aproveitando a heterogênea iconografia acumulada nas pinturas, muitas vezes marcada pelo simbolismo e pelo imaginário mitológico, e que por isso oferecia um material altamente sugestivo da atmosfera fantástica da narrativa. Ao fim da exposição a instalação foi "sacrificada" e muitos de seus elementos foram recolhidos por outros participantes da exposição, evocando a dispersão e preservação da memória dos viajantes entre aqueles com quem eles entraram em contato.

 

 

A ideia da reconstituição da viagem lendária só se definiu num primeiro momento em linhas gerais, e foi sendo desenvolvida e criada em seus detalhes ao longo do processo de montagem. Simplégades foi importante em meu trabalho por constituir uma oportunidade de estabelecer uma ordem mais ou menos inteligível, embora não desprovida de paradoxos e discursos paralelos, em um material que eu vinha produzindo, acumulando e expondo caoticamente. A forma de apresentação em pequenas subnarrativas espalhadas pela sala foi um fator decisivo na articulação da obra como um percurso e na adequação ao espaço peculiar da sala. 

 

Remetente, Espaço Cultural ULBRA, Porto Alegre, 1998.

Ricardo Frantz, 2012

 

 

30/01/2012 07:28

Exposição coletiva "Antarctica Artes com a Folha", Ibirapuera, São Paulo, 1998

 

 

"Ricardo Frantz cria ambiguidades num espaço que parece corriqueiro, como uma sala de estar, mas cuja desorganização nos faz atentar para o significado de cada um daqueles objetos comuns ali colocados."

 

 

Nelson Brissac Peixoto

Catálogo da exposição Antarctica Artes com a Folha

Ibirapuera, São Paulo

Edtora Cosac Naify, 1998

 

 

 

A instalação que apresentei na coletiva Antarctica Artes com a Folha procurou transportar para o ambiente de galeria o ambiente do atelier. Reuni uma quantidade de pinturas em pequenas dimensões, minhas ou de outras pessoas, todas amadores anônimos que encontrei em uma feira de quinquilharias baratas, junto com mobília, caixas, livros e outros objetos. Era o ambiente em que eu produzia, e sua configuração, embora reproduzida artificialmente, não se afastou da verdade espontânea. Na verdade, ambas realidades em meu trabalho estavam muito próximas. O caos aparente se trata antes de uma organizção especial, nascida muito do acaso mas também de um senso de composição dirigida e de equilíbrio dinâmico de formas e volumes. O próprio processo de fazer se torna um ato estético acabado e significante, materializando um grande movimento coreográfico no espaço em que se impregnam as superfícies de materiais diversificados. As peças podem ser compreendidas em separado, mas sua inclusão no conjunto em um arranjo inesperado lhes minimiza a importância individual e as tornam fragmentos de um grande arabesco abstrato.

 

Ricardo Frantz, 2012

 

20/10/2011 05:34

Exposição individual "Annedoto", Galeria de Arte da Universidade de Caxias do Sul, 1998

 

Os trabalhos que desenvolvo no momento são fruto de uma pesquisa formal que se estende já por mais de 6 anos. Fundamentam-se conceitualmente e se realizam como objetos no emprego simultâneo de uma variada gama de materiais, estilemas, técnicas e procedimentos, de modo des-hierarquizado.

 

A sua apresentação é basicamente frontal, reminiscente de minha formação acadêmica como pintor. Contudo, tenho especial interesse em certa topografia física originada, na bidimensionalidade predominante, pelas colagens de papéis, adesivos, fotos e outros materiais. Tal topografia lhes confere, creio, um certo charme tosco, e reitera, ao evitar ilusionismos facilmente induzidos por uma superfície sem acidentes, sua presença física como objetos.

 

 

Um aspecto essencial é que parte principal da matéria-prima constituinte destes trabalhos é registro de outras obras, e às vezes é essas próprias outras obras, em rearranjos. Ou seus restos e fragmentos. Ou qualquer coisa que estiver ao alcance. De qualquer modo, sempre se trata de material de cunho afetivo. São em sua maioria reelaborações em torno de situações ou memórias de um tempo passado. Mesmo os ready-made, impuros, que produzo, são objetos de certa forma memorialistas.

 

O uso da reprodução de um outro objeto (foto, xerox, imagens de segunda ou terceira geração) é um expediente de distanciamento e de espelhamento, de multiplicação, ao mesmo tempo que é uma revitalização, porque existente como objeto novo, diferente daquele evento ou objeto artístico anterior, ainda que nesta revitalização o objeto original seja freqüentemente desnaturado e sua leitura desviada. Tomando como fulcro esta dialética entre o visível e o invisível, o original e a cópia, o processo e o produto, é possível ampliar o campo da percepção e da crítica de valor. Ficando patente, na sua rusticidade intencional, a estrutura física subjacente a todo objeto, as possibilidades de intercâmbios, mutações, reverberações e aproximações entre todas as coisas materiais produzem formas nunca definitivas, mas fluentes e abertas a novas organizações. Tudo pode vir a ser e/ou significar outra coisa. Torna-se natural, e mesmo orgânico, o trânsito entre as várias técnicas, e uma simples colagem pode ser o motor de partida para uma instalação que abranja uma sala inteira.

 
 

Diz Dane Rudhyar:

 

"Quando um vasto grupo de homens consegue construir uma cultura dotada de fortes instituições que se expressam em símbolos e obras significativas no campo da arte ou da literatura, um tal esforço de muitas gerações raramente se perde de uma vez por todas. De uma forma ou de outra, registros destas culturas resistem ou são misteriosamente preservados, pela simples razão de que esses registros revelam o lugar e a função dessa cultura particular ao longo do processo de desdobramento das potencialidades inerentes ao HOMEM arquetípico (...) O Símbolo (...) nos diz, todavia, que a preservação REAL dos registros em questão jamais é perfeita ou integral. Apenas fragmentos permanecem, mas fragmentos significativos o bastante para revelarem a forma arquetípica essencial".         

 

Opero em uma modalidade bastante autobiográfica de expressão. Assumidamente um homo culturalis, meu ser sendo constituído de símbolos e formas culturais vivos, além das formas naturais, vejo meu trabalho como a recuperação da própria trajetória percorrida em meio à minha cultura original, terceiromundista, pobre e marginal, sem nostalgias, porém com afeto. Porém urge reavaliar sempre, urge achar novas soluções para problemas que essencialmente circulam em torno de um centro comum: o eu em meio ao todo. A questão que permanece é: como viver a história hoje, como transformar-me, atualizar-me, sem deixar de ser eu mesmo, com todo o meu passado e com o passado de minha cultura, ainda tão vivo? Autofagia e regeneração. Em meio à eterna mutação das formas, ao seu desvanecimento material, ao seu escape contínuo por entre os dedos da memória, talvez meu trabalho espelhe uma busca de um senso de firmeza e permanência, um chão sob meus pés, mesmo quando a nova afirmação, conscientemente cultural e pretendendo uma inserção artística, soe como uma deliberada reação às maneiras convencionais de estruturação formal, ou ao modo tradicionalmente considerado como virtuosístico ou bem-acabado de uma obra se fazer visível.

 

 

Ricardo Frantz

Exposição Annedoto, Galeria de Arte da Universidade de Caxias do Sul, 1998

 

 

 

 

20/10/2011 05:31

Exposição individual "O que quer dizer?", Casa de Cultura de Caxias do Sul, 1996

 

Inquietude do artista, serenidade da arte

 

"A exposição do artista plástico Ricardo Frantz, na Galeria da Casa de Cultura, provoca o público. Causa estranheza. Não são apenas as obras, mas também o modo de expô-las que chama a atenção. Alguns espectadores se sentem agredidos. Nada de novo. A segunda metade do século XIX e o século XX são marcados pelo conflito entre a arte e o gosto do público. Independente da definição de critérios para julgar o valor artístico de uma obra, o gosto estético só pode ser formado na base do princípio da sociabilidade e da intersubjetividade. As relações do indivíduo com os valores do grupo social determinam, em grande parte, padrões estéticos considerados válidos, apenas válidos, não necessariamente verdadeiros.

 

"Ricardo Frantz busca uma linguagem individual, tarefa que exige dedicação. A perfeição expressiva não supõe apenas o abandono de práticas e conceitos dominantes. Requer também uma nova linguagem, espontânea ou construída, mas sempre adequada à função de expressar. Como acontece com os poetas, escrever versos sem métrica exige maior domínio do ritmo. Ser espontâneo, primitivo ou assumir o 'traço' popular, para o homem culto é uma impossibilidade que só o artista procura superar. Ricardo Frantz aceita decididamente correr esse risco. Tenta dizer a realidade como se fosse pela primeira vez, como fazem os artistas criadores. Tal afoiteza provoca conseqüências nos resultados da própria obra e nas reações do público. Para os que lidam com arte, entre tantas obras expostas, é natural que algumas se destaquem pelas soluções formais.

 

"Parece que o próprio artista tem uma certa estranheza diante da obra, pois o título da exposição, em forma de pergunta 'O que quer dizer?', traduz esse sentimento. Tal atitude não é defeito, mas virtude. Ao perguntar 'o que quer dizer', referindo-se aos seus trabalhos, passa ao público as suas dúvidas. Não pretende definir sua arte. Quer saber se ela diz e, principalmente, o que quer dizer. Porém, o querer dizer depende, antes de tudo, da própria obra, ponte entre o artista e o espectador. A obra está aí. Posta a público. Diz por si. Impossível traduzir exatamente a 'fala' pictórica em palavras.

 

 

"O artista parece inconformado com os modos institucionalizados de expor a obra ao público. Por isso, Ricardo Frantz intervém nos aspectos sociais da exposição e procura devolver às obras algo do estado de atelier. No mundo do atelier, as obras encontram-se justapostas, espontaneamente. Estão num ordenamento 'caótico' anterior ao convencional da galeria. A exposição não pode desvirtuar o que há de genuíno, de espontâneo, de vivido, de gênese na obra. A própria moldura é adjetiva. Ela não faz parte do quadro. Por isso, para evitar as interferências externas, o artista procura anular os artifícios (falas da arte) da exposição através de novas interferências, talvez provocantes, mas que pretendem libertar o sentido da obra. O artista usa o recurso da encenação, do mise en scéne, para expor seus trabalhos. Poderia até colocar as obras de arte empilhadas em cima de uma mesa para cada espectador manusear e olhar como quiser. Já que é necessário o placo, a parede, a sala, ele tira proveito do modo de expor as obras para completar a linguagem da própria obra. Cabe ao espectador distinguir, comparar, selecionar as obras. Distinguir as obras mais bem realizadas em relação às menos elaboradas.

 

 

"O querer dizer nem sempre é o 'poder dizer'. Ricardo Frantz sabe disso muito bem. Prova disso é a atmosfera de inquietude de seus quadros, mas de uma inquietude serena, sem falsos dramas, presente nos jogos dos movimentos e das cores. Perspectivas, enquadramentos, ângulos, planos estão dominados pela primazia do movimento que define a composição. A cores apresentam-se livres. Deste modo, a inquietude, que tende a ser grave no homem, na obra de arte adquire serenidade. O artista luta para dizer seus sentimentos ao mundo. O que permanece no quadro são rastros. Signos, figuras de Jesus, da Virgem, símbolos antigos e populares testemunhando um mundo mítico e religioso entre paisagens ou cenas de vida."

 

Jayme Paviani

Professor, filósofo e crítico de arte.


Matéria no Jornal Pioneiro, 1 de junho de 1996

 

 

20/10/2011 05:29

Exposição coletiva "Nova Pintura Figurativa", MAC-RS, Porto Alegre, 1994

 

"Ricardo Frantz está tentando recuperar a memória cultural marginalizada da arte. O caráter de pastiche de sua obra atual, feita de ícones de mau gosto, procedimentos fáceis e a ênfase na pintura de gênero, denota o esforço em recuperar o lixo cultural, a produção dos pintores de rua, dos naïfs, dos objetos kitsch. Ao lado desta tentativa de recuperação da dignidade perdida das manifestações culturais marginalizadas, Ricardo Frantz percorre um caminho de autoconhecimento através da sua arte, onde o elemento religioso compartilha do mesmo espaço da citação culta, da inscrição em latim, da referência ao gosto pessoal. A narrativa de sua pintura deve ser compreendida como uma linguagem de aparências, onde o que está explicitado não é necessariamente e o que significa, mas o que pode vir a significar."

 

Paulo Gomes, curador.

Texto do catálogo da exposição Nova Pintura Figurativa, 1994,

Galeria Iberê Camargo do MAC-RS, Porto Alegre

 

Querida, cheguei bem! acrílica, 70x70 cm

 

Ave Maria, ready-made retificado #3,

interferência sobre estampa popular, 30x40 cm

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Ricardo André Frantz